A permanente, o laquê e a máquina patenteada em 1928

Você lembra do cheiro. Aquele cheiro forte de salão, que grudava no cabelo e ficava dois dias.

A cadeira reclinada, a touca, os bobes apertados até doer, e aquele aparelho pendurado no teto — um capacete de onde saíam dezenas de fios com presilhas na ponta, que a cabeleireira ia prendendo mecha por mecha até a sua cabeça parecer ligada na tomada. Porque estava.

Sua mãe fazia. Sua avó fazia. Talvez você tenha feito, e tenha a foto para provar.

O que ninguém contava, sentada naquela cadeira, é que aquele aparelho foi patenteado em 1928 por uma mulher negra de 32 anos que nunca ganhou um centavo com ele.

O problema que ela resolveu

Nos anos 1920, ondular o cabelo era um trabalho de horas. Fazia-se mecha por mecha, com ferro quente, e o resultado durava até a primeira chuva. Se você queria cabelo ondulado de segunda a domingo, você voltava ao salão toda semana.

Marjorie Stewart Joyner era cabeleireira em Chicago e conta-se que teve a ideia enquanto cozinhava. Ela estava assando carne com aqueles espetos de metal que se enfiam na peça para o calor chegar ao centro — e pensou que se aquilo funcionava para cozinhar por dentro, funcionaria para o cabelo.

O que ela construiu foi exatamente isso: um capacete preso acima da cadeira, com cerca de dezesseis bastões ligados a um sistema elétrico, que prendiam as mechas e aplicavam calor em todas ao mesmo tempo. O que levava horas passou a levar uma fração do tempo, e a onda durava dias.

Em 1928 ela recebeu a patente número 1.693.515. A máquina funcionava tanto em cabelo liso quanto em cabelo crespo, o que era raro em qualquer equipamento de beleza da época.

Quem era ela

Marjorie Stewart Joyner nasceu em 24 de outubro de 1896, neta de uma mulher escravizada e de um homem branco, no Vale do Mississippi. Foi para Chicago ainda menina.

Em 1916, aos vinte anos, tornou-se a primeira aluna negra a se formar na A.B. Moler Beauty and Culture School da cidade. Pouco depois entrou para a empresa de Madam C.J. Walker — a primeira mulher a se tornar milionária por conta própria nos Estados Unidos, e ela também negra.

Joyner virou vice-presidente e supervisora nacional de 200 escolas de beleza da companhia. Ficou ligada àquela empresa por mais de cinquenta anos.

E o dinheiro?

Aqui a história azeda, e é por isso que ela precisa ser contada.

Joyner era funcionária quando inventou a máquina. Conta-se que os direitos da patente ficaram com a empresa Walker, e que ela nunca recebeu royalties pela invenção. Essa versão é repetida em praticamente todas as fontes, mas eu não encontrei o documento de cessão que provaria isso — então fica registrada como a versão corrente, não como fato verificado.

O que é fato é que ela não ficou rica com a máquina, e continuou trabalhando a vida inteira.

O que ela fez depois

Muita coisa, e nada disso costuma aparecer junto com a máquina.

  • Em 1945, fundou a irmandade Alpha Chi Pi Omega, para profissionais de beleza negras.
  • Em 1946, fundou a United Beauty School Owners and Teachers Association.
  • Ajudou a escrever a primeira lei de regulamentação da profissão de cabeleireira no estado de Illinois.
  • Levantou dinheiro para faculdades negras, e passou a vida em campanhas por educação.
  • Aos 77 anos, entrou na faculdade e se formou em psicologia. Não é erro de digitação.

Morreu em 27 de dezembro de 1994, aos 98 anos.


Marjorie Stewart Joyner (1896–1994) patenteou em 1928 a máquina de permanente que equipou salões de beleza no mundo inteiro por décadas — e provavelmente ondulou o cabelo da sua avó. Nunca lucrou com a invenção. Fundou duas associações profissionais, ajudou a regulamentar o ofício de cabeleireira e se formou na faculdade aos 77 anos.

O que anda circulando e não é verdade

Você vai ler em muitos lugares que Marjorie Joyner foi a primeira mulher negra a receber uma patente nos Estados Unidos. Não foi.

Antes dela vieram pelo menos duas: Judy W. Reed, que em 1884 patenteou uma máquina de amassar e peneirar massa, e Sarah E. Goode, que em 1885 patenteou uma cama dobrável que virava escrivaninha — e que morava, aliás, na mesma Chicago.

Joyner foi das primeiras, e a mais conhecida. Isso já é bastante, e não precisa de exagero.

E você, guardou?

Se você tem foto da permanente — sua, da sua mãe, da sua avó, do dia em que deu errado —, manda para a gente. Este espaço é para isso: as coisas que a gente guardou.

Onde isso foi conferido

  • National Inventors Hall of Fame — verbete de Marjorie Stewart Joyner, com o número e o ano da patente. Consultar
  • Lemelson-MIT e National Archives dos Estados Unidos.
  • Consultado em agosto de 2026.

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