As Bruxas da Noite bombardearam a Wehrmacht em aviões de lona

O som chegava antes. Um zumbido pequeno, teimoso, como uma máquina de costura no escuro — era assim que os soldados alemães descreviam. Eles até deram esse nome ao avião: Nähmaschine, máquina de costura.

E então o zumbido parava.

O silêncio era a parte insuportável. Significava que a piloto havia cortado o motor a alguns quilômetros dali e vinha planando, e que nos próximos vinte, trinta, quarenta segundos, alguma coisa ia explodir e ninguém sabia onde. O único ruído que restava era o do vento passando pelos montantes das asas — um assobio baixo que, para quem estava no chão tentando dormir, lembrava vassouras varrendo o céu.

Foi daí que veio o apelido: Nachthexen. As Bruxas da Noite.

Eram meninas de dezessete a vinte e poucos anos.

Como um regimento de mulheres foi parar na guerra

No verão de 1941, a União Soviética estava perdendo pilotos numa velocidade que nenhum país consegue repor. Foi nesse contexto que Marina Raskova — a mulher mais famosa da aviação soviética, primeira navegadora da Força Aérea, Heroína da União Soviética desde 1938 por um voo de 5.947 quilômetros através da Sibéria — fez pressão para que mulheres fossem admitidas em unidades de combate.

Em 8 de outubro de 1941, a ordem NKO nº 0099 criou três regimentos aéreos femininos: o 586º de caça, o 587º de bombardeio diurno e o 588º de bombardeio noturno. Cerca de duas mil candidatas se apresentaram para umas quatrocentas vagas por regimento. O treinamento foi em Engels, às margens do Volga.

Vale registrar uma coisa que quase todo mundo erra: Raskova comandou o 587º, não o 588º. Ela morreu em 4 de janeiro de 1943, na queda de um bombardeiro perto de Stalingrado, e recebeu o primeiro funeral de Estado da guerra — cinzas no muro do Kremlin. Nunca comandou as Bruxas.

Quem comandou foi Yevdokia Bershanskaya, desde a fundação, em outubro de 1941, até a dissolução em outubro de 1945 — um comando único e ininterrupto, coisa raríssima em qualquer exército. Bershanskaya é, até hoje, a única mulher da história a receber a Ordem de Suvórov. Nunca foi feita Heroína da União Soviética.

Dos três regimentos, o 588º foi o único que permaneceu inteiramente feminino do começo ao fim da guerra: pilotas, navegadoras, mecânicas, armeiras. Todas.

O avião

O Polikarpov Po-2 era um biplano de 1928 feito para treinar cadetes e pulverizar lavouras. Estrutura de madeira, revestimento de tecido. Motor radial de cinco cilindros, 125 cavalos. Velocidade máxima de 152 quilômetros por hora — a de cruzeiro, 110. Cabine aberta, sem aquecimento, no inverno russo.

Sem rádio.

A navegação era feita com régua, cronômetro, lanterna, lápis, mapa e bússola. Uma pessoa lendo o mapa no colo à luz de lanterna, sobre território ocupado, a 800 metros de altura, no escuro.

E aqui está a parte que soa como piada e não é: aquela lentidão absurda era uma arma. A velocidade máxima do Po-2 era próxima da velocidade de estol do Messerschmitt Bf 109 e do Focke-Wulf Fw 190. Um caça alemão que tentasse reduzir o suficiente para acertar o biplano corria o risco de simplesmente cair do céu. O Po-2 também voava baixo demais para os radares e era pequeno demais para os holofotes acharem depressa.

O que ele não tinha era qualquer proteção. Madeira e tecido pegam fogo instantaneamente quando atingidos por munição traçante. Não havia blindagem, não havia armamento defensivo, e durante a maior parte da guerra não havia paraquedas — o peso foi trocado por bomba. Não que fizesse muita diferença: a altitude operacional ficava entre 600 e 1.200 metros, o que dá pouco tempo para qualquer coisa.

Como cada avião carregava uma carga ridícula, a solução foi repetir. Cada tripulação voava entre 8 e 18 saídas por noite, de trinta a cinquenta minutos cada. Pousavam, as armeiras penduravam as bombas na asa à mão, decolavam de novo. A noite inteira. Todas as noites.

A tática mais usada era em trios: dois aviões passavam primeiro, chamando os holofotes e a antiaérea para si, enquanto o terceiro cortava o motor e vinha planando em silêncio até o ponto de largada. Depois trocavam de papel. A pessoa que servia de isca numa passagem era a que bombardeava na seguinte.

As mulheres

Irina Sebrova voou 1.008 missões — o recorde do regimento e um dos maiores números individuais de qualquer aviador da Segunda Guerra. Foi feita Heroína da União Soviética em fevereiro de 1945.

Natalya Meklin, 980. Nina Ulyanenko, 905 — 388 como navegadora e 530 como piloto. Rufina Gasheva, 848.

Nadezhda Popova voou 852 missões e chegou a fazer 18 numa única noite. Era instrutora de voo quando a guerra começou e se alistou depois que o irmão morreu. Foi abatida em 1942 no Cáucaso do Norte e sobreviveu. Combateu na Bielorrússia, na Polônia e na Alemanha, casou-se com um piloto e morreu em 2013, aos 91 anos. Sobre o que a manteve voando, ela disse a coisa mais direta possível: “Se você desiste, nada é feito e você não é um herói.”

E há Yevgeniya Rudneva, que talvez seja a mais dolorosa. Antes da guerra, ela estudava astronomia na Universidade de Moscou e queria passar a vida olhando para o céu por outros motivos. Virou navegadora-chefe do regimento e voou 645 missões. Foi abatida em 9 de abril de 1944, perto de Kerch, na Crimeia. Tinha 23 anos. Hoje existe um asteroide chamado 1907 Rudneva.

A pior noite

Na noite de 31 de julho para 1º de agosto de 1943, sobre a península de Taman, um piloto noturno da Luftwaffe chamado Josef Kociok abateu quatro Po-2 em poucas horas. Oito mulheres morreram naquela noite e foram enterradas juntas. Foi a primeira vez em que o regimento inteiro ficou em solo.

Ao longo de três anos de combate, o 588º voou cerca de 23.672 missões e lançou aproximadamente três mil toneladas de bombas. Cerca de trinta mulheres morreram. Por volta de 23 receberam o título de Heroína da União Soviética — o número exato varia entre 22 e 24 conforme a fonte, porque houve concessões póstumas tardias.

A última missão de combate foi em 4 de maio de 1945. Em outubro, o regimento foi dissolvido.

O que aconteceu depois é a pior parte

Elas voltaram para casa e foram mandadas calar a boca.

Em 1945, Mikhail Kalinin, chefe de Estado formal da União Soviética, instruiu as veteranas explicitamente a não se gabarem do que tinham feito. Vieram os boatos sobre a moralidade sexual delas, a pressão para casar e ter filhos, o país inteiro querendo que a guerra virasse assunto de homem.

E funcionou. Uma pesquisa acadêmica sobre a memória dessas mulheres mostra que, nos anos 1950, as aviadoras já estavam na periferia da memória coletiva soviética. Quando o grande culto oficial à Segunda Guerra se consolidou, nos anos 1960, elas não foram celebradas — já tinham sido esquecidas. Foi por isso que muitas começaram, a partir daquela década, a escrever as próprias memórias: não por vaidade, mas porque era a única forma de existir no registro.

As sobreviventes marcavam um encontro por ano, em Moscou, junto ao Teatro Bolshoi. Iam ficando menos a cada ano.

Mulheres só voltaram a ser admitidas em funções de combate na Força Aérea russa em 2017.


O que elas mudaram

O 588º Regimento de Bombardeio Noturno, depois 46º Guardas “Taman”, foi a única unidade aérea integralmente feminina a combater a guerra inteira. Voou cerca de 23.672 missões noturnas em biplanos de treinamento de madeira e tecido, entre 1942 e maio de 1945.

Onde isso foi conferido

  • The National WWII Museum — perfil do regimento. Ler
  • Folklorica (University of Kansas), artigo acadêmico revisado por pares sobre a memória das veteranas soviéticas no pós-guerra — a melhor fonte para a parte do esquecimento. Ler
  • Washington Post — obituário de Nadezhda Popova, 2013.
  • Smithsonian National Air and Space Museum e Museum of Flight.
  • Referência canônica para quem quiser ir a fundo: Reina Pennington, Wings, Women, and War: Soviet Airwomen in World War II Combat, University Press of Kansas, 2001.

O que é lenda e anda circulando como fato

“Elas foram excluídas do Desfile da Vitória porque os aviões eram lentos demais.” Não. O sobrevoo aéreo do desfile de 24 de junho de 1945 em Moscou foi inteiramente cancelado por causa da chuva — nenhum avião voou naquele dia. A história não se sustenta. O apagamento delas foi real, mas aconteceu de outro jeito, mais lento e mais cruel, ao longo de quinze anos de silêncio oficial.

“Todo alemão que abatesse uma Bruxa da Noite ganhava automaticamente a Cruz de Ferro.” Não existe política documentada da Luftwaffe nesse sentido. Josef Kociok recebeu a Cruz de Cavaleiro em 31 de julho de 1943, mas por acúmulo de vitórias na carreira. Um caso concreto virou regra geral na recontagem.

Os números variam muito. Adotei 23.672 missões, que é o valor mais específico e mais próximo das fontes de arquivo. Números como “mais de 30 mil” somam os três regimentos femininos, não só o 588º. A cifra de “23 mil toneladas de bombas” que circula é aritmeticamente impossível — daria quase uma tonelada por saída, quase o triplo da capacidade máxima do avião.

Paraquedas. A versão popular é que nunca tiveram. Há fontes que dizem “até 1944”. Escrevi “durante a maior parte da guerra”, que é o que dá para sustentar.

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