Alice Ball tinha 23 anos. O chefe assinou a descoberta dela.

Havia um óleo que quase funcionava, e era isso o que fazia dele uma crueldade.

O óleo de chaulmoogra, extraído das sementes de árvores dos gêneros Hydnocarpus e Taraktogenos, era usado havia séculos na Índia e na Birmânia contra doenças de pele. No início do século XX, era a única coisa que os médicos tinham para oferecer a quem tinha hanseníase. E era praticamente inutilizável.

Passado na pele, era grosso e pegajoso demais para ser absorvido. Engolido, era tão amargo que os pacientes vomitavam. Injetado — a via que deveria funcionar — o óleo não se dissolvia no sangue: acumulava-se sob a pele em bolhas dolorosas, provocava abscessos e febre. O tratamento doía mais do que a doença naquele momento.

No Havaí, onde pessoas com hanseníase eram separadas das famílias e enviadas para a península de Kalaupapa, isso não era um detalhe técnico. Era a diferença entre voltar para casa e não voltar nunca.

Quem era ela

Alice Augusta Ball nasceu em Seattle em 24 de julho de 1892, a terceira de quatro filhos de James Presley Ball Jr. e Laura Howard Ball, uma família negra de classe média — o avô tinha sido daguerreotipista, um dos primeiros fotógrafos negros dos Estados Unidos.

Ela fez dois bacharelados na Universidade de Washington, em química farmacêutica e em farmácia. Em 1914, aos 22 anos, já assinava um artigo no Journal of the American Chemical Society com o professor William Dehn.

Foi para o Havaí fazer mestrado. A tese foi sobre a composição química da raiz de kava. Em 1915, tornou-se a primeira mulher e a primeira pessoa negra a obter um mestrado em química naquela instituição — e foi imediatamente contratada como professora de química, aos 23 anos.

Foi então que um médico chamado Harry Hollmann, do Leprosy Investigation Station, procurou a jovem professora com o problema do chaulmoogra.

O que ela fez, em linguagem de gente

O óleo é uma mistura de ácidos graxos — no caso, o ácido chaulmoógrico e o ácido hidnocárpico, moléculas com um anel de cinco carbonos na ponta. A parte que curava estava nesses ácidos. O problema não era a química ativa: era o veículo. Óleo e sangue não se misturam.

Alice Ball separou os ácidos graxos do óleo e os transformou quimicamente em ésteres etílicos — uma modificação que muda como a molécula se comporta na água sem destruir o que ela faz no corpo. O resultado foi um líquido que podia ser injetado, que se dissolvia, que o corpo absorvia, e que não deixava a pessoa em carne viva.

Ela fez isso em menos de um ano. Tinha 23 anos.

Em 31 de dezembro de 1916, aos 24, Alice Ball morreu.

O chefe

Ela morreu antes de publicar. Não deixou um único artigo com o nome dela sobre o próprio método.

Arthur Dean, químico e já então presidente da faculdade — cargo que ocupou de 1914 a 1927 —, assumiu o projeto. Em 1919, o laboratório já produzia o extrato em escala. Entre 1920 e 1922, Dean publicou os resultados. O nome de Alice Ball não aparece em nenhuma dessas publicações. A técnica passou a ser conhecida como Método Dean.

Quem quebrou o silêncio foi Hollmann, o médico que a tinha procurado. Num artigo de 1922 nos Archives of Dermatology and Syphilology, ele escreveu, sem meias-palavras: “Miss Ball resolveu o problema para mim ao fabricar os ésteres etílicos.” E acrescentou que não conseguia ver melhoria alguma sobre a técnica original tal como desenvolvida por ela. Chamou-a de Método Ball, que é como se chama hoje.

Os números do que aquilo fez são modestos e concretos: 78 pacientes receberam alta do Hospital Kalihi em 1920 depois das injeções; 94 no ano fiscal de 1921. O método permaneceu o tratamento padrão para hanseníase até a chegada das sulfonas, em meados dos anos 1940 — quase trinta anos.

O reconhecimento, oitenta anos depois

Em fevereiro de 2000, a Universidade do Havaí colocou uma placa junto à árvore de chaulmoogra do campus, e a vice-governadora do estado proclamou um dia em homenagem a ela. Em 2007, veio a medalha póstuma. Em 2018, um parque em Seattle recebeu seu nome. Em 2019, o nome dela entrou no friso da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Em 2024, um busto em tamanho natural foi instalado na biblioteca da universidade. E em fevereiro de 2026, o Método Ball foi oficialmente designado marco histórico nacional da química pela American Chemical Society.

Alice Ball viveu 24 anos, 5 meses e 7 dias.


O que ela mudou

Alice Augusta Ball desenvolveu, em 1915-1916, o primeiro tratamento injetável eficaz e tolerável para a hanseníase, transformando o óleo de chaulmoogra em ésteres etílicos solúveis. O método foi o padrão mundial por quase três décadas, e foi publicado por outra pessoa, sem crédito a ela, depois de sua morte.

Onde isso foi conferido

  • Parascandola, John (historiador da medicina, National Library of Medicine/NIH). Chaulmoogra Oil and the Treatment of Leprosy — a fonte mais rigorosa do conjunto, e a única que discute criticamente a eficácia real. Ler o PDF
  • HistoryLink — perfil biográfico detalhado, incluindo o histórico da certidão de óbito. Ler o perfil
  • Universidade do Havaí — designação do Método Ball como marco histórico da química, 2026. Ver a notícia
  • National Geographic e The Conversation — reportagens sobre a apropriação do crédito.

O que ainda não se sabe

Como ela morreu é a maior incógnita da história dela. A versão mais repetida — envenenamento por cloro durante uma aula, em setembro de 1916 — vem de uma nota de jornal de 1917. A certidão de óbito original teria registrado essa causa; depois foi revisada para tuberculose, quando a faculdade negou a versão do cloro. Há uma terceira leitura, de que o cloro constava como especulação e a causa nunca foi determinada. Três versões concorrentes, nenhuma provada.

A variante que fala em demonstração de máscara de gás não fecha no calendário: os Estados Unidos só entraram na Primeira Guerra em abril de 1917, e ela adoeceu em setembro de 1916.

E uma ressalva importante sobre o próprio tratamento: os pacientes recebiam alta por não apresentarem bacilos detectáveis naquele momento, o que não é o mesmo que cura. Já em 1942 havia médicos experientes questionando o valor terapêutico real do chaulmoogra. O Método Ball foi um alívio enorme e um avanço genuíno — não foi a cura da hanseníase, que só veio com as sulfonas e, depois, a poliquimioterapia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima