Em agosto de 1981, o porteiro de um prédio no centro de Curitiba forçou a porta de um apartamento. Uma senhora de 68 anos não tinha aparecido no aniversário da afilhada, e ninguém a via havia dias. Encontraram o corpo. O atestado registrou 27 de agosto, mas a estimativa foi de que ela já estivesse morta havia cerca de uma semana.
Os jornais locais noticiaram a morte de uma senhora excêntrica e completamente desconhecida.
A senhora desconhecida era Enedina Alves Marques, a primeira mulher a se formar em Engenharia no Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil.
A menina que estudou emprestado
Enedina nasceu em Curitiba em 13 de janeiro de 1913 — algumas fontes registram dia 8, e essa pequena discordância já diz muito sobre quanto se cuidou de guardar a vida dela. Era filha de Virgília Alves Marques, conhecida como Dona Duca, lavadeira e empregada doméstica, e de Paulo Marques, lavrador que se separou da família cedo. Uma família negra que tinha vindo do interior no deslocamento que se seguiu à abolição, e que chegou à capital sem nada.
Enedina foi criada como agregada na casa dos patrões da mãe — a família do militar e intelectual republicano Domingos Nascimento Sobrinho. Foi ali que a educação dela começou: Enedina servia de dama de companhia a Isabel, a filha da casa, e por isso estudou junto com ela. Não por direito. Em troca de trabalho.
Só foi alfabetizada por volta dos doze anos. Em 4 de dezembro de 1931, aos dezoito, saiu da Escola Normal com diploma de professora. Deu aula por quatro anos em cidades do interior — Rio Negro, São Mateus do Sul, Cerro Azul, Campo Largo. Podia ter parado ali. Professora normalista já era, para uma mulher negra e pobre no Brasil dos anos 1930, um teto altíssimo.
Ela decidiu que queria calcular estruturas.
Seis anos para um curso de cinco
Entre 1935 e 1939, Enedina fez o curso Madureza e depois o complementar de pré-Engenharia, sempre à noite, sempre trabalhando de dia como doméstica e babá nas casas da elite curitibana. Em dezembro de 1939, entrou com o requerimento de ingresso na Faculdade de Engenharia do Paraná.
A taxa de matrícula era de 425 mil réis — quase dois salários mínimos da época. Ela não conseguiu gratuidade nem auxílio. Pagou trabalhando.
Os registros acadêmicos guardados no arquivo da UFPR contam o resto sem precisar de adjetivos. Enedina levou seis anos para concluir um curso de cinco. Foi reprovada em Cálculo Infinitesimal, Geometria Descritiva, Mecânica Racional, Física e Resistência dos Materiais. Encerrou com média final 3,5, enquanto um colega branco de família rica saía com notas entre 5,75 e 6,0. O pesquisador que levantou esses documentos chegou à conclusão de que houve, na trajetória dela, um tratamento hierarquizado — um jeito educado de dizer que as notas não mediam só o que ela sabia.
Em 16 de dezembro de 1945, no Palácio Avenida, na Rua XV de Novembro, ela colou grau. Tinha 32 anos e era a única mulher entre 32 homens. O vestido da formatura foi presente da família Caron, que a abrigava desde 1935; Iracema Caron foi sua madrinha. Os pais biológicos não estavam lá.
A engenheira que existiu
Ela não virou símbolo. Virou funcionária pública. Entrou na Secretaria de Viação e Obras Públicas como auxiliar de engenharia e foi transferida para o Departamento de Águas e Energia Elétrica como fiscal de obras. Em 1951, passou em concurso e foi reclassificada como Engenheira. Chegou a chefe de hidráulica, chefe da divisão de estatística e chefe do serviço de engenharia da Secretaria de Educação.
Nos anos 1950, trabalhou no plano estadual de aproveitamento hidrelétrico dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu — os estudos que deram origem à usina Capivari-Cachoeira, a maior usina subterrânea do Sul do Brasil. A Copel reconhece hoje, no site oficial da usina, que ela trabalhou ali. A UFPR é mais específica: fala em levantamento topográfico.
Vale dizer com clareza, porque muita coisa se escreve sem cuidado: Enedina não projetou nem construiu aquela usina. Ela se aposentou em 1962; a construção começou em 1963 e a usina entrou em operação em 1970. O que ela fez foi o trabalho de campo e de estudo que veio antes — a parte que ninguém inaugura com autoridade presente e faixa cortada. Quando a usina foi enfim inaugurada, em janeiro de 1971, com o presidente Médici presente, ainda se chamava Capivari-Cachoeira. Mais tarde passou a levar o nome de um governador morto no cargo.
Ela se aposentou aos 49 anos. Nenhum documento explica por quê. O governador Ney Braga assinou um decreto concedendo a ela proventos equivalentes ao salário de um juiz — um gesto que sugere que, dentro do estado, alguém sabia exatamente o tamanho do que ela tinha feito.
Depois disso, dezenove anos de silêncio, e o apartamento no Edifício Lido.
O que veio tarde demais
Enedina não teve filhos, nem irmãos por perto, nem herdeiros para brigar pela memória dela. As homenagens começaram sete anos depois da morte: uma rua no Cajuru em 1988. Depois um memorial em 2000, um instituto de mulheres negras em Maringá em 2006, uma placa da UFPR em 20 de novembro de 2018, um trecho de rodovia em 2019, um Google Doodle em 2023, uma estátua na Rua XV de Novembro em 2024. O CREA do Paraná dá um prêmio anual com o nome dela.
Na cerimônia da placa da UFPR, a sobrinha Lizete, então com 80 anos, resumiu a tia numa frase que não idealiza nada: “Ela não era dada a abraços, não era aquela coisa de titia, mas foi um exemplo para mim.”
Enedina não foi uma heroína simpática. Foi uma mulher difícil, sozinha e teimosa, que atravessou a pé uma distância que ninguém tinha atravessado antes — e que morreu sem que a cidade em que ela nasceu soubesse o que tinha perdido.
O que ela mudou
Enedina Alves Marques foi a primeira mulher diplomada em Engenharia no Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil, formada em 1945. Trabalhou por mais de quinze anos na engenharia hidráulica do estado, incluindo os estudos que precederam a usina Capivari-Cachoeira.
Onde isso foi conferido
- Santana, Jorge Luiz. Pesquisa documental publicada na Revista Vernáculo (UFPR) — a fonte mais sólida, baseada em históricos escolares, diplomas e fichas funcionais de arquivo. Ler o artigo
- Benite, Anna M. C. Revista da ABPN, v.12 n.33, 2020.
- UFPR — cerimônia de inauguração da placa, 20/11/2018. Ver a notícia
- Copel — página oficial da Usina Parigot de Souza. Ver a página
- Gazeta do Povo e Correio Braziliense — reportagens sobre a vida e a morte dela.
O que ainda não se sabe
A data de nascimento oscila entre 8 e 13 de janeiro de 1913. A data da morte tem duas versões: 27 de agosto no atestado, por volta de 20 de agosto pela estimativa do estado do corpo. O número de irmãos varia de 8 a 10 conforme a fonte. E não existe nenhum documento — projeto assinado, ART, relatório técnico — que comprove autoria de projeto na Capivari-Cachoeira: quem afirma que ela projetou a usina está repetindo uma frase bonita que ninguém verificou.